Burnout: quando descansar já não parece suficiente
Sobre cansaço, produtividade e a sensação de nunca fazer o bastante
Sobre cansaço, produtividade e a sensação de nunca fazer o bastante
Talvez o esgotamento não comece quando você não consegue mais trabalhar. Talvez comece muito antes, quando você já não consegue parar.
Você termina uma tarefa e já está pensando na próxima.
Fecha o computador, mas continua respondendo mensagens pelo celular. Chega o fim de semana e descansar parece desperdício. Sai de férias, mas demora dias até conseguir desacelerar — quando consegue.
Há sempre alguma coisa que ainda poderia ser feita.
E, por algum tempo, talvez isso até funcione.
Você dá conta.
Até que um dia aquilo que parecia apenas cansaço começa a não passar mais.
A palavra burnout passou a fazer parte do nosso vocabulário cotidiano.
Às vezes, usamos o termo para falar de qualquer período de exaustão. Mas nem todo cansaço é burnout.
A Organização Mundial da Saúde define o burnout como um fenômeno relacionado ao trabalho, decorrente de um estresse crônico no contexto profissional que não foi administrado com sucesso. Entre suas características estão a exaustão, um crescente distanciamento ou negatividade em relação ao trabalho e a sensação de redução da própria eficácia profissional.
Isso importa porque estar muito cansado depois de uma semana difícil não é necessariamente estar em burnout.
O descanso costuma devolver alguma coisa ao cansaço comum.
No esgotamento, às vezes, dormir uma noite ou passar um fim de semana sem trabalhar já não parece suficiente.
Mas há outra pergunta que talvez valha a pena fazer:
como chegamos ao ponto em que parar se tornou tão difícil?
Em Sociedade do Cansaço, o filósofo Byung-Chul Han propõe uma leitura provocadora do nosso tempo.
Para ele, vivemos cada vez menos em uma sociedade organizada apenas pela proibição — pelo “você deve”, pelas regras e pela autoridade que nos vigia de fora.
No lugar disso, ganha força uma sociedade do desempenho.
A mensagem agora parece mais positiva:
você pode.
Pode produzir mais.
Pode melhorar.
Pode se reinventar.
Pode transformar seu corpo, sua carreira, sua rotina, seus hábitos.
Pode chegar mais longe.
À primeira vista, isso parece liberdade.
Mas existe uma contradição aí.
Quando tudo parece depender da nossa capacidade, também o fracasso passa a parecer inteiramente nosso.
Se eu posso fazer mais, por que estou fazendo tão pouco?
Se todos parecem conseguir, por que eu não consigo?
Se depende de mim, talvez eu só precise me esforçar um pouco mais.
E a cobrança já não precisa necessariamente vir de um chefe.
Nós mesmos aprendemos a fazê-la.
Quando a cobrança vem de dentro, parar pode parecer fracassar.
Talvez uma das experiências mais dolorosas do esgotamento seja perceber que aquilo que antes parecia possível deixou de ser.
Você lia com facilidade e agora precisa voltar ao mesmo parágrafo três vezes.
Tomava decisões rapidamente e passa a se sentir paralisado diante de coisas pequenas.
Dormia e acordava cansado.
Uma reunião comum parece exigir uma energia que você já não sabe de onde tirar.
E então aparece uma frase:
“Mas eu sempre dei conta.”
Ela parece falar apenas de produtividade.
Mas talvez fale também de identidade.
Porque “dar conta” pode deixar de ser apenas algo que fazemos e se transformar em algo que acreditamos ser.
A pessoa eficiente.
A que resolve.
A que aguenta.
A que não falta.
A que entrega.
A que consegue administrar tudo.
Quando essa capacidade falha, não é apenas o trabalho que entra em crise.
Pode surgir uma pergunta muito mais difícil:
se eu não consigo mais ser essa pessoa, quem eu sou?
Seria simples se bastasse perceber o cansaço e descansar.
Mas nem sempre conseguimos.
Você se senta no sofá e lembra do que ainda não terminou.
Decide não trabalhar no sábado e passa parte do sábado pensando que deveria estar trabalhando.
Tira férias e sente que precisa “aproveitá-las direito”.
Até o descanso pode se transformar em tarefa.
Dormir melhor. Meditar. Fazer exercício. Ler. Viajar. Desconectar.
Precisamos até descansar com eficiência.
E talvez seja justamente aí que a reflexão de Han se torne tão atual.
A lógica do desempenho não termina necessariamente quando fechamos o computador.
Ela pode atravessar a maneira como nos relacionamos conosco.
Há sempre uma versão melhor de nós mesmos esperando para ser alcançada.
Mais produtiva.
Mais saudável.
Mais organizada.
Mais interessante.
Mais bem-sucedida.
E descansar, nesse contexto, pode produzir a estranha sensação de estar ficando para trás.
Às vezes, sim.
Existem jornadas excessivas, ambientes adoecedores, metas impossíveis, insegurança profissional e condições concretas de trabalho que não podem ser transformadas em uma questão individual.
Nem todo sofrimento no trabalho deve ser explicado pela maneira como alguém se relaciona consigo mesmo.
Mas talvez exista também outra dimensão.
Duas pessoas podem viver situações parecidas e responder a elas de formas diferentes.
Para algumas, reconhecer um limite é possível.
Para outras, parar parece quase impensável.
Por quê?
Talvez porque o trabalho não ofereça apenas dinheiro.
Ele pode oferecer reconhecimento.
Pertencimento.
Uma sensação de competência.
Uma resposta para a pergunta sobre o próprio valor.
E quando produzir passa a ser uma das principais maneiras de sentir que somos suficientes, reduzir o ritmo pode tocar em algo muito mais profundo do que a agenda.
Às vezes sabemos que estamos cansados.
Sabemos que estamos ultrapassando nossos limites.
Dizemos:
“Só preciso terminar esta semana.”
“Depois dessa entrega melhora.”
“Quando passar esse projeto, eu descanso.”
“Nas férias eu recupero.”
Mas a próxima demanda chega.
E depois outra.
Talvez exista algo importante nessa promessa permanente de que depois poderemos parar.
Porque o problema pode não estar apenas na quantidade de coisas que fazemos.
Pode estar também naquilo que imaginamos que aconteceria se deixássemos de fazê-las.
O que apareceria no espaço que hoje está ocupado pelo trabalho?
Culpa?
Angústia?
Uma sensação de inutilidade?
O medo de decepcionar?
A impressão de não estar fazendo o bastante da própria vida?
Às vezes, continuar ocupado também evita algumas perguntas.
Descansar é necessário.
Mas talvez exista uma diferença entre descansar porque o corpo não aguenta mais e conseguir reconhecer um limite antes de chegar até ali.
O burnout não deve ser reduzido a uma dificuldade individual de “saber parar”. Há condições de trabalho que adoecem e responsabilidades que pertencem às organizações, não ao trabalhador.
Ainda assim, a experiência do esgotamento pode revelar algo sobre a relação que construímos com nossas próprias exigências.
Por que foi preciso chegar tão longe para reconhecer que era demais?
Por que o limite parecia aceitável para os outros, mas não para nós mesmos?
Por que descansar precisava ser merecido?
Por que fazer menos parecia significar ser menos?
Talvez essas perguntas não tenham respostas rápidas.
Mas podem abrir uma outra forma de pensar o cansaço.
Não apenas como uma falha na nossa capacidade de produzir.
Mas como um sinal de que alguma coisa na maneira como estamos vivendo talvez precise ser escutada.
Byung-Chul Han nos ajuda a perceber uma característica desconfortável da sociedade do desempenho: podemos nos sentir livres enquanto reproduzimos, dentro de nós, uma exigência que parece não ter fim.
Talvez por isso nem sempre seja suficiente alguém dizer:
“Você precisa descansar.”
Porque, às vezes, a questão não é saber que precisamos parar.
É conseguir suportar o que sentimos quando paramos.
Então talvez valha experimentar outras perguntas:
Quem eu sou quando não estou produzindo?
O que eu acredito que preciso provar — e para quem?
Quando foi que descansar passou a precisar de justificativa?
E se eu não precisasse provar que dou conta, o que faria diferente?
Talvez o esgotamento nos confronte justamente com um limite que passamos tempo demais tentando ultrapassar.
E escutá-lo pode ser diferente de simplesmente tentar recuperar energia para voltar a produzir como antes.
Se o trabalho, a cobrança ou a sensação de precisar dar conta de tudo têm ocupado um espaço grande demais na sua vida, talvez essas questões possam encontrar um lugar para serem escutadas.