Por que é tão difícil dizer não?
Culpa, limites e o medo de decepcionar
Culpa, limites e o medo de decepcionar
Às vezes, dizer “sim” para o outro é uma forma silenciosa de dizer “não” para si.
Você aceita um convite que não queria aceitar. Assume mais uma tarefa quando já estava cansado. Responde “tudo bem” quando, na verdade, não estava tudo bem.
E só depois vem aquela sensação difícil de nomear: incômodo, irritação, cansaço — às vezes até raiva.
Não necessariamente do outro.
Às vezes, de si mesmo.
Porque, em algum lugar, você sabia que queria dizer não.
À primeira vista, estabelecer um limite parece simples.
Alguém pede. Você percebe que não quer ou não pode. E responde não.
Mas nossas relações não são construídas apenas a partir daquilo que queremos conscientemente.
Para algumas pessoas, dizer não pode carregar sentidos muito maiores: decepcionar alguém, parecer egoísta, provocar um conflito, deixar de ser necessário ou até correr o risco de perder o amor do outro.
É por isso que certos “sins” têm pouco a ver com disponibilidade.
Eles podem ser uma tentativa de preservar um vínculo.
Há pessoas que aprenderam muito cedo a perceber o que os outros precisam.
Sabem quando alguém está desconfortável. Antecipam demandas. Evitam conflitos. Tentam não incomodar.
Muitas vezes, são descritas como fáceis, generosas, disponíveis.
Mas existe uma pergunta menos confortável:
quanto custa sustentar permanentemente esse lugar?
Quando o desejo do outro ocupa espaço demais, o próprio desejo pode começar a aparecer apenas pelas bordas — na irritação, no esgotamento, na vontade de se afastar, na sensação de estar sempre fazendo muito e, ainda assim, nunca ser suficiente.
O limite que não pôde ser colocado em palavras pode acabar aparecendo de outras formas.
Em Análise, Vera Iaconelli parte também de sua própria experiência no divã para pensar o que significa sustentar um desejo que nem sempre coincide com aquilo que esperam de nós.
Em uma entrevista sobre o livro, a psicanalista fala de um conflito que aparece com frequência em análise: a distância entre quem acreditamos que deveríamos ser e quem, de fato, podemos ser.
Ela chama atenção ainda para algo especialmente difícil: sustentar o próprio desejo pode trazer o medo de perder aqueles a quem somos ligados.
Talvez seja justamente por isso que alguns limites pareçam tão ameaçadores.
Dizer “não” pode significar deixar de ocupar um lugar que conhecemos muito bem: a filha que não dá trabalho, a parceira que compreende tudo, o amigo sempre disponível, a pessoa que resolve, acolhe, cede.
Há relações em que somos reconhecidos também pelos lugares que aprendemos a ocupar.
E sair deles pode produzir culpa.
Não necessariamente porque estamos fazendo algo errado, mas porque estamos fazendo algo diferente do que esperavam de nós — e, muitas vezes, do que aprendemos a esperar de nós mesmos.
Talvez crescer também envolva suportar uma descoberta incômoda: às vezes, ser mais fiel ao próprio desejo significa frustrar uma expectativa alheia.
E isso tem um preço.
Essa talvez seja uma das perguntas escondidas por trás da dificuldade de dizer não.
Se parte daquilo que somos também se constrói nas relações e no olhar do outro, o que acontece quando deixamos de corresponder à imagem que esse olhar devolvia?
Essa pergunta atravessa Eu só existo no olhar do outro?, conversa entre os psicanalistas Ana Suy e Christian Dunker sobre amor, identidade, alteridade e as formas pelas quais existimos em relação aos outros.
O título do livro já carrega uma provocação importante.
Quanto daquilo que acreditamos ser depende de sermos reconhecidos de determinada maneira?
Talvez colocar um limite nos confronte justamente com isso.
Se eu sempre fui a pessoa disponível, o que acontece quando digo que não posso?
Se sempre fui quem evita conflitos, quem sou quando discordo?
Se aprendi a ser amado correspondendo às expectativas, continuarei sendo amado quando deixar de corresponder a algumas delas?
Posso continuar sendo eu — e continuar sendo amado — mesmo quando o outro não gosta da minha escolha?
É uma pergunta muito mais complexa do que simplesmente aprender técnicas para dizer não.
Nem sempre.
Essa talvez seja uma das armadilhas do discurso contemporâneo sobre limites: transformar toda relação em uma oposição entre “eu” e “o outro”.
As coisas são mais complexas.
Viver com outras pessoas exige concessões. Amar também envolve, em muitos momentos, fazer algo que não escolheríamos fazer sozinhos.
A questão não é passar a dizer não para tudo.
É poder perceber de onde vem o seu sim.
Ele nasce de uma escolha?
Do carinho?
Do desejo de estar com aquela pessoa?
Ou do medo do que pode acontecer caso você desagrade?
Há uma diferença importante entre fazer algo pelo outro e sentir que não existe a possibilidade de não fazer.
Talvez essa seja uma pergunta mais interessante do que simplesmente:
“Por que eu não consigo colocar limites?”
O que você imagina que aconteceria se colocasse?
Alguém ficaria decepcionado?
Você seria visto como egoísta?
Deixariam de precisar de você?
Haveria conflito?
Ou talvez aparecesse uma sensação ainda mais difícil: a de não ser mais aquela pessoa que você aprendeu que deveria ser.
Porque às vezes não tememos apenas decepcionar o outro.
Tememos também deixar de corresponder à imagem que construímos de nós mesmos.
A psicanálise não propõe uma vida em que fazemos simplesmente “o que queremos”.
Até porque descobrir o que queremos raramente é tão simples assim.
Uma análise pode, no entanto, abrir espaço para perceber quantas das nossas escolhas são atravessadas pela necessidade de corresponder, agradar, reparar, evitar conflitos ou garantir que o outro permaneça.
E talvez, aos poucos, seja possível sustentar uma ideia desconfortável:
alguém pode se decepcionar com você sem que isso signifique que você fez algo errado.
Um limite pode frustrar.
Um não pode desagradar.
Uma escolha pode não corresponder ao que esperavam de você.
E ainda assim ser sua.
Na próxima vez em que perceber que disse “sim” querendo dizer “não”, talvez não seja necessário se culpar imediatamente.
Pode ser mais interessante perguntar:
Para quem eu estava dizendo sim?
O que eu temi perder se dissesse não?
E quem eu imagino que preciso ser para continuar sendo amado?
Às vezes, é justamente nessa distância entre aquilo que queremos dizer e aquilo que conseguimos dizer que alguma coisa sobre nós começa a aparecer.
Leia também: Por que repetimos os mesmos relacionamentos?
Se colocar limites, sustentar escolhas ou lidar com a culpa tem sido difícil para você, talvez essas questões possam encontrar um espaço para serem escutadas.