O que acontece com aquilo que nunca conseguimos dizer?
Uma reflexão a partir de Ioga, de Emmanuel Carrère
Uma reflexão a partir de Ioga, de Emmanuel Carrère
"Se manifestares o que existe dentro de ti, isso que tu manifestares te salvará. Se tu não manifestares o que existe dentro de ti, isto que tu não manifestares te matará."
— Evangelho apócrifo de Tomé
Há livros que nos acompanham pela história que contam.
Outros permanecem por causa de uma única frase.
Ioga, de Emmanuel Carrère, talvez pertença aos dois.
O livro começou como um projeto sobre meditação. Carrère queria escrever sobre silêncio, atenção e a busca por uma vida mais presente. Mas, enquanto escrevia, sua própria vida tomou um rumo inesperado.
Ele enfrentou uma grave depressão, foi internado, recebeu o diagnóstico de transtorno bipolar e passou por um tratamento com eletroconvulsoterapia (ECT). O livro que pretendia falar sobre serenidade tornou-se, inevitavelmente, um relato sobre sofrimento, vulnerabilidade e a tentativa de continuar vivendo depois que aquilo que sustentava a própria identidade parece desmoronar.
Antes mesmo da primeira página, porém, Carrère escolhe deixar uma frase ao leitor.
"Se manifestares o que existe dentro de ti, isso que tu manifestares te salvará. Se tu não manifestares o que existe dentro de ti, isto que tu não manifestares te matará." — Evangelho apócrifo de Tomé
Ela permanece ecoando muito depois da leitura.
Porque, de alguma maneira, todos sabemos o que significa guardar algo por tempo demais.
Existem dores que parecem pequenas demais para serem contadas.
Existem perdas que não cabem em uma explicação.
Há raivas que aprendemos a esconder, medos que tentamos controlar e tristezas que passam anos sendo respondidas apenas com um "está tudo bem".
Mas aquilo que não dizemos deixa de existir?
Na psicanálise, não costumamos pensar o silêncio como ausência.
O silêncio também comunica.
Aquilo que não encontra palavras pode continuar se manifestando de outras maneiras.
Às vezes através da ansiedade.
Outras vezes na repetição das mesmas relações, em um corpo que parece sempre cansado, em sintomas que insistem em voltar ou naquela sensação difícil de explicar de que algo não vai bem, mesmo quando, aparentemente, está tudo certo.
Leia também: Por que repetimos os mesmos relacionamentos?
Existe uma ideia muito comum de que fazer terapia é "desabafar".
Embora isso possa acontecer, a análise vai muito além.
Nem sempre sabemos exatamente o que sentimos quando começamos a falar.
Muitas vezes, descobrimos durante o próprio caminho.
As palavras não servem apenas para comunicar o que já sabemos.
Elas também nos ajudam a construir sentidos para aquilo que ainda não compreendemos.
Talvez seja por isso que alguns silêncios pesem tanto.
Não porque escondam grandes segredos, mas porque carregam experiências que nunca encontraram um lugar onde pudessem existir.
Essa talvez seja a pergunta que mais me acompanha depois da leitura de Ioga.
Não porque o livro ofereça uma resposta.
Mas porque ele nos lembra de algo profundamente humano: há momentos em que continuar vivendo exige encontrar uma forma de dizer aquilo que parecia impossível.
Não necessariamente para qualquer pessoa.
Nem imediatamente.
Mas em algum lugar onde isso possa ser acolhido.
Na clínica, muitas vezes vejo que o sofrimento não está apenas naquilo que aconteceu.
Está também no tempo em que alguém precisou carregar tudo sozinho.
Não acredito que ela esteja dizendo que falar resolve tudo.
Nem que exista uma cura em simplesmente colocar sentimentos para fora.
Acho que ela aponta para outra direção.
Aquilo que permanece sem palavras não deixa de nos atravessar.
Continua existindo.
Continua produzindo efeitos.
E, às vezes, continua falando por nós, através da ansiedade, dos sintomas, das repetições ou do corpo.
A análise não elimina a dor.
Mas pode oferecer um lugar onde aquilo que parecia impossível de ser dito encontre, pouco a pouco, uma forma de existir na linguagem.
E, quando isso acontece, algo também começa a mudar dentro de nós.
Em Ioga, Emmanuel Carrère escreve sobre o esforço de permanecer vivo quando a própria vida parece perder o sentido.
A frase escolhida para abrir o livro não oferece respostas. Ela apenas nos lembra de que existe algo profundamente transformador quando uma experiência deixa de existir apenas como silêncio.
Talvez seja justamente por isso que a psicanálise continue apostando na palavra.
Não porque ela resolva tudo.
Mas porque, às vezes, é nela que uma nova história pode começar.
Se este texto despertou alguma pergunta em você, talvez ela não precise ser respondida imediatamente.
Mas talvez mereça um lugar onde possa ser escutada.